Enfim, assisti ao filme Coringa.
Um filme marcante que diz muito mais do que aparenta dizer e que pode ser
analisado sob os aspectos artístico, psicológico, sociológico, político e
filosófico. É sobre esse último aspecto que teço minha breve análise.
O filme tem como pano de fundo
Gotham, uma metrópole populosa, escura, suja, desigual e caótica, que pode ser
comparada às grandes cidades do continente americano como Nova York, Chicago,
Cidade do México e São Paulo, por exemplo. Gotham certamente representa nossa
sociedade e o Coringa nossos mitos. Para uma melhor compreensão desta ideia, é
imprescindível uma pequena digressão sobre três conceitos básicos: “liberdade”,
“responsabilidade” e “realização”.
A modernidade criou e o
liberalismo desenvolveu o conceito de "liberdade". A partir do Século
XVIII, a filosofia ocidental passou a defender a premissa de que o homem seria dono
de seu próprio destino, pois atuaria sobre o mundo a partir de suas próprias
escolhas. O homem, então, deixou de fazer parte da unidade do todo e passou a
ser sujeito, ao passo que o mundo, objeto. Liberdade, então, passou a ser um
conceito metafísico, que inclusive pôde ser encontrado nos pensamentos de Descartes,
Kant e Heidegger.
Como consequência do conceito de
liberdade, pariu-se a ideia de responsabilidade. Assim, o homem passou a ser
responsabilizado por sua ação livre, seja ela correta ou incorreta. A liberdade,
então, seria a possibilidade do homem agir em direção à sua realização, sendo,
portanto, responsável pelo seu êxito ou pelo seu fracasso.
A realização, por sua vez, pode
ser conceituada como alcance de reconhecimento. Quando uso o vocábulo
reconhecimento, não o emprego no sentido empregado por Hegel, Taylor ou Honneth,
mas no sentido que Max Weber empregaria, na hipótese do sociólogo ter abordado
a ideia de realização. Realização, nesse caso, poderia ser resumida em autoridade
e poder ostensivo sobre alguém, coisas ou até mesmo ofícios, assim como acontece
com os ricos, celebridades, artistas e atletas, por exemplo.
Não obstante o modo de produção e
distribuição dos bens e a forma de organização da sociedade liberal tenha como
foco a garantia da liberdade dos indivíduos, ambos contribuíram para que a
realização e o reconhecimento apenas estivesse ao alcance de poucos. Desde a antiguidade,
o reconhecimento se mantém como dadiva reservada à uma minoria em termos
populacionais, e isso se manteve, inclusive, com o surgimento do liberalismo e
com a ascensão da burguesia. Daí, como modo de seduzir os membros das classes
subalternas ao pensamento liberal, criou-se o conceito de “mobilidade social” ou
“ascensão social”. Creditada ao esforço individual, a acessão social tornou-se
sinônimo de realização: alto padrão de consumo e alto grau de sofisticação e
manipulação do saber, que geram reconhecimento. Isso foi divulgado como algo
natural nas ruas, nos livros, nas revistas, nos jornais e no cinema. O mundo
então, adotou o modo binário, pois o sucesso do reconhecimento se constratou
com o fracasso do ostracismo.
Muito embora o fracasso estivesse
definitivamente reservado à maioria das pessoas, muitos o encararam como
responsabilidade própria, decorrente de suas más escolhas. Outros já o encaram como
algo momentâneo, pois acreditavam que um dia tomaria, escolhas acertadas que o
fariam vencedores e realizados. Alguns, no entanto, preferem acreditar que a
culpa de sua debilidade é do outro, isto é, daquele que conquistou
reconhecimento. Daí nascem sentimentos como o ódio, ira e inveja. Por não
conseguir estar no lugar do outro, querem a sua eliminação e a de seus valores
pela violência.
Assim, o derrotado acaba encontrando
realização na vingança, a confundindo com justiça. Por isso, se apoia em um
herói, ou um mito, que vai realizar a vingança dos ressentidos, débeis e
frustrados. E é esse é o palhaço, que também pode ser chamado de Coringa.
O protestantismo emergiu a partir
do Século XVI como religião que simbolizaria a modernidade. O calvinismo, por
exemplo, pregou que Deus reservou a felicidade para seus filhos aqui na Terra.
Essa crença acabou encontrando alicerce na metafísica do sujeito kantiano, que
se realiza, individualmente, pelo trabalho em um modo de produção capitalista. Por
isso, tem-se um massa de indivíduos frustrados a procura da realização que
provavelmente nunca vão encontrar. O passo seguinte é o ressentimento, a ira e após,
a violência.
A simpatia com o Coringa não se
deve a desigualdade ou a indiferença, mas por ser símbolo da vingança e da violência
reprimida em face ao mundo. É crer na vingança violenta como a cura do
ressentimento. Uma reação à frustração que nem todos tem coragem de tomar,
sendo que por isso se apegam a um mito, um vingador.
Pelo fato da justiça do
ressentido ser a vingança dos débeis, o Coringa passa a ser o herói daqueles
que se veem derrotados, daqueles que odeiam tudo aquilo que não conseguiram ser,
e por isso endossam o caos e a destruição. É nada mais que o ódio contra tudo
aquilo que lhes foi privados.
Não obstante exista muitos
potenciais coringas, somente alguns pouquíssimos é que se tonam um de fato. A
violência real é para poucos. Ainda bem! Os demais, estão tão débeis e
arruinados que não teriam a coragem de apelar à violência, muito embora
mantenham-se entusiastas de um discurso violento e reacionário. É só olhar com
mais atenção para aqueles que apoiam pautas violentas, que defendem a prática de
tortura, que esbravejam contra direitos humanos e que exaltam a guerra e o caos
como meio de estabelecimento da ordem.

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