Não se pode negar que o
individualismo, com o auxílio de mecanismos publicitários e até ideológicos,
arraigou-se na consciência coletiva da sociedade brasileira como um todo, sendo
que acaba por refletir-se tanto na política econômica, como em práticas do
cotidiano do brasileiro, como na religiosidade, no trabalho e até no sexo.
No campo político-econômico, por exemplo, o individualismo se expressa no
neoliberalismo. Amplamente difundido nas práticas governamentais brasileiras
desde o início dos anos 90 do século passado, especialmente nos governos FHC,
Temer e Bolsonaro, o neoliberalismo se alicerça em políticas de profunda
austeridade fiscal, diminuição contínua de gastos sociais, privatizações e
desregulamentação da economia, sempre com o fim de reforçar o valor do direito
à propriedade privada, ao passo que despreza
movimentos coletivistas como entidades de classe, partidos políticos e o
próprio Estado como instituição pública. Na concepção neoliberal, questões
como saúde e educação pública ganham dimensão secundária, pois se tratam de
valores que sucumbem à importância do direito à propriedade e ao ímpeto da
livre iniciativa.
O exponencial sucesso no Brasil da
teologia da prosperidade também exemplifica muito o individualismo no país. Os
líderes religiosos adeptos à essa doutrina defendem que a bênção financeira é o
desejo de Deus para
os cristãos e que a fé, o discurso positivo e as doações para as igrejas, irão sempre aumentar
a riqueza material do fiel, além de ser a chave da resolução de seus problemas
individuais, sejam eles emocionais, de saúde ou de ordem financeira. Nessa perspectiva,
a benção seria adquirida a partir do esforço individual de fé junto à Deus, não
tendo qualquer relação com o esforço coletivo. Não há qualquer responsabilidade
coletiva, ou mesmo social destinada ao fiel, pois a graça de Deus se resumiria
em o Todo Poderoso resolvendo os problemas particulares de quem lhe procura e é
assíduo nas campanhas levadas à cabo pelas igrejas. Assim, a fé passa ser a fórmula
que o indivíduo encontra para fazer prevalecer seus interesses particulares, em
contrapartida ao valor nulo da comunidade.
No trabalho não é
diferente. No Brasil, o operário que trabalha em uma fábrica com outras dezenas
ou centenas de colegas na mesma situação é minoria já há um bom tempo. Muitos
até falam que trata-se de “espécie” que caminha para a extinção. As fabricas,
quando não estão fechando, estão sendo operadas por robôs e por isso, o antigo
trabalhador da linha de produção acabou tendo que migrar para o que muitos
chamam de “empreendedorismo”. O antigo operário passou a ser o dono de seu
próprio negócio, que na maioria das vezes tem um único empregado: ele mesmo.
Segundo dados do
IBGE, o percentual de trabalhadores informais na população ocupada chegou a
41,3%, atingindo 38,683 milhões de brasileiros e ainda segundo as informações
oficiais esse contingente é formado em sua maioria por trabalhadores por conta
própria.
O mercado propicia
cada vez mais incentivos para que cada
pessoa se torne seu próprio empresário e gestor, e nesse modelo há pouco espaço
para exercício de uma solidariedade coletiva. Não há pautas transindividuais
nem tampouco sindicatos ou mesmo cooperativas em que seus membros compartilhem
de uma luta comum. Sobrou apenas o indivíduo, que ingenuamente acredita ser o
único responsável pelo seu sucesso ou fracasso financeiro e dono de seu próprio
tempo e empreendimento.
Nas práticas sexuais contemporâneas os
dados também mostram um triunfo do individualismo. De acordo com uma lista
divulgada pela Amazon, o Pornhub seria o 26º site mais acessado do mundo, a
frente de sites como aliexpress.com. A página de pornografia só ficaria atrás
de páginas de busca, como o Google, de redes sociais ou sites de compra. Outros
sites pornôs como Porn555 e Xvideos estariam na colocação 41ª e 46ª,
respectivamente. Mas o que estes dados significam? Simples: o tamanho da busca por prazer livre e sobretudo individual.
O sexo deixou há
muito de ser algo romântico feito a dois. Não que transar não possa ser um meio
de satisfação de impulsos e fantasias. O que quero apontar aqui é que os dados
evidenciam que o sexo tem se tornado cada vez mais individualista. Os especialistas dizem que as relações reais passaram
a ser afetadas e estão cada dia mais em desuso a medida que aumenta o acesso à
pornografia. É comum que os usuários mais frequentes de pornografia sintam no
sexo real a falta das práticas idealizadas vistas nos vídeos pornôs. Daí, o
prazer desejado, somente passa a ser alcançado de forma solitária, individualmente,
na frente do computador, tablet ou smarthphone.
Enfim, refletir sobre o individualismo é
uma boa oportunidade para repensarmos nossas ações como indivíduos e sociedade,
as quais muitas vezes praticadas de forma irrefletida, fato que acaba por se
tornar um impeditivo de que se aflore uma consciência coletiva em nosso meio.

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